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Teles avançam sobre a música

Autor: Folha de S. Paulo

No país em que o iTunes não chega e em que as gravadoras ficaram acuadas pela pirataria, empresas de telefonia tomam as rédeas da música digital

ANA PAULA SOUSA
DA REPORTAGEM LOCAL

Camiseta amarela com a inscrição "soul and jazz" e dezenas de nomes de bandas na ponta da língua, o inglês Adrian Harley tem pinta de produtor musical. Vê-lo sentado à mesa de reuniões de um prédio da região da Berrini, em São Paulo, num ambiente "high tech", causa, num primeiro momento, certo ruído. Falará ele de música ou tecnologia de ponta?
Harley, que havia trabalhado no Brasil com o AfroReggae, é a face de um movimento que, de fato, mistura canais. Contratado pela Nokia para cuidar de música, ele é um entre os cerca de 400 ex-funcionários da indústria fonográfica que a empresa de telecomunicações puxou para seus quadros.
Na semana passada, a Oi também contratou um egresso de gravadora. Pouco antes, havia convidado Bid, figura de proa da MPB mais moderninha, para produzir o primeiro CD da banda Sobrado 112, a ser lançada pelo selo Oi.
A "telecom", dona de dez rádios, assume que, além de vender serviços de dados e voz, quer interferir na cena musical. "Procuramos descobrir e divulgar novas bandas. Tentamos dar oportunidades, como se fôssemos uma gravadora", diz Bruno Rocha, gerente de desenvolvimento de novos negócios da Oi.
"Em geral, as gravadoras demoraram para entrar na música digital. O próprio iTunes ofereceu um serviço que elas, sozinhas, não conseguiram desenvolver", avalia Rocha. "As empresas de tecnologia da informação estão acostumadas à evolução, enquanto a indústria fonográfica viu a internet, durante muito tempo, mais como ameaça do que como oportunidade." Cabe lembrar que, no Brasil, dada a vastidão da pirataria e a miudeza do mercado digital, a Apple ainda não encontrou um modelo de negócios viável para o iTunes.

O telefone toca
A entrada das teles no negócio da música se deu pelos ringtones. "É aí que começa a música para o celular", diz Fiamma Zarife, diretora de serviços de valor agregado da Claro. "E esse conteúdo já nasce pago. É também por isso que o usuário não se recusa a pagar pela música no celular."
Mas o que nasceu como toque personalizado para os aparelhos agigantou-se. E criou um novo tipo de concorrência entre operadoras e fabricantes de celular. Todos os executivos ouvidos na reportagem desfiaram longas listas de serviços musicais que vão de transmissão de shows ao vivo a lançamentos de faixas exclusivas.
"Está na hora de desmistificar a atitude das operadoras. Não somos ameaça", diz, de antemão, Carlos Roseiro, gerente de produtos e serviços da Vivo.
A empresa oferece download de música desde 2005 e, há dois anos, passou a disponibilizar as faixas por e-mail. Em 2008, teve 3 milhões de downloads. "A Ivete Sangalo foi disco de ouro graças à quantidade de aparelhos celulares vendidos."
Segundo Cláudio Vargas, diretor de Digital e Novos Negócios da Sony, as receitas vindas das teles representam mais de 70% da música digital no Brasil. O digital, por sua vez, responde por cerca de 15% do faturamento global da companhia. "E estamos numa curva de crescimento acelerada, na casa de 80% ao ano", afirma.
A principal pedra no caminho é, ainda, o preço. A Vivo, que desde agosto vende música também pelo site, chega a cobrar R$ 4,30 por uma faixa. A Oi cobra R$ 3,99 pelo que vem das grandes gravadoras e R$ 0,99 pelas músicas das bandas que apoia. "Encontramos várias resistências para baixar o preço, que têm a ver com toda a cadeia de valores, ainda muito orientada para a distribuição física", diz Roseiro. Rocha cita a base em dólar como um dos entraves para as negociações. "Se a gente esperar a indústria, não anda", afirma.
Vargas pondera que, além das gravadoras, a cadeia de custos contempla uma série de agentes, do governo às editoras, que recebem os direitos autorais. "Mas o preço, principalmente em celular, tende a baixar", diz. Cita como exemplos o modelo de assinatura que, mediante pagamento fixo, disponibiliza música à vontade e o "Comes With Music", da Nokia, que oferece 5 milhões de músicas a quem compra determinados aparelhos.
Mas o modelo de assinatura, apesar de desejado pelas operadoras, tem travas. "A gente não sabe, por exemplo, como cobrar de quem tem pré-pago. E o pré-pago representa 80% da nossa base de clientes. Só quando o pré-pago estiver incluído o negócio realmente crescerá", diz Zarife, da Claro. E, ao que tudo indica, os investimentos das teles só tendem a crescer.
"A música tem representatividade na receita, mas é mais importante ainda como posicionamento. Baixar ou não música é algo que pesa na hora da compra de um aparelho", aposta a executiva da Claro.
As ofensivas musicais têm a ver também com imagem - em geral, ligada à juventude- e fidelização de clientes. Mas não só. Apesar de, ante os bilhões arrecadados pelas teles, o dinheiro da música não ser fundamental, há cifrões a embalar essa nova estratégia. Rocha resume: "Estamos no negócio da música porque achamos que temos dinheiro para ganhar".

Falta de lojas virtuais e pirataria andam juntas
Gravadoras como a Sony dizem ser preciso aumentar oferta de música legal

Em 2008, música digital movimentou R$ 45 milhões; apreensão de CDs e DVDs piratas chegou a 41 milhões de unidades no país

DA REPORTAGEM LOCAL

"As gravadoras, ao restringirem as opções de música digital, acabaram incentivando a pirataria. Qualquer tele arrecada mais com música digital do que as gravadoras." A afirmação de Bruno Rocha, gerente de desenvolvimento de novos negócios da Oi, encontra eco não só entre estudiosos do direito autoral como também entre quem é da indústria musical -na sua ponta independente.
"A indústria começou a se comportar como se vivesse de um formato físico, o CD", diz João Marcello Bôscoli, da gravadora Trama. "Não existe um ser humano que a internet tenha inventado. Sempre existiu o garoto que gravava o disco na fita cassete e distribuía pela escola. A indústria só vai encontrar saídas quando entender que pirataria não se resolve com batida policial."
Mas, como indicam os passos de empresas como a Sony, as gravadoras passaram a buscar alternativas. Perguntado sobre o quanto as gravadoras tinham perdido o "trem da história" e deixado o Brasil órfão de música digital legal, Cláudio Vargas, disse não ser "relevante discutir trens passados".
Segundo ele, a visão da empresa sobre futuro e novas mídias é outra. "O digital e as ações de venda de conteúdo e de marketing em mídias digitais é um dos grandes pilares estratégicos da companhia."
Vargas admite que, mais importante que combater a pirataria, é oferecer novas possibilidades ao consumidor. "Precisamos aumentar o número de lojas e modelos de negócio para que o consumidor tenha mais ofertas e opções."
Adrien Harley, que hoje cuida de música da Nokia brasileira, viveu esse mesmo momento na Inglaterra. Há um par de anos. Trabalhando com a empresa Play It Again, Sam, a maior distribuidora de música eletrônica da Europa, ele lançou as versões digitais de Moby e Oasis, em parceria com grupos do porte da rede Wal-Mart ou sites como BBC e Yahoo.
"Foi todo um processo para convencer gravadoras e artistas. Tivemos de evangelizar o mercado", diz. "A venda de CDs caía e, mesmo assim, havia artistas que resistiam a entrar no digital. Mas, na Europa, esse momento foi superado."
Segundo Harley, a música digital movimentou, em 2008, R$ 45 milhões no Brasil. Em 2007, tinham sido R$ 24 milhões. Ao comentar a sempre alardeada crise da indústria fonográfica, ele observa que, a despeito da queda vertiginosa da venda de CDs, outras fontes vieram em socorro do negócio.
"O "ao vivo", na Inglaterra, saltou de 15 milhões de libras em 2003 para 27 milhões em 2008. A arrecadação de direitos autorais e o dinheiro vindo de patrocínios e de outras mídias, como os games, que usam música, também cresceu. Apenas a música gravada caiu."
O colunista da Folha Ronaldo Lemos faz um resumo disso ao dizer, simplesmente, que ocorreu uma mudança na economia dos bens culturais. "Não adianta insistir em modelos de negócio que não fazem mais sentido para o consumidor digital", diz. "A guerra do direito autoral será vencida no campo econômico, através de modelos de negócio que sejam competitivos em face da pirataria."
Enquanto as lojas e modelos virtuais procuram seu espaço, apenas em 2008 a Associação Antipirataria Cinema e Música apreendeu 41 milhões de unidades de CDs e DVDs piratas. (ANA PAULA SOUSA)

23 de outubro de 2009, Folha de S. Paulo.

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