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Herdeiros do escritor Cornell Woolrich processam Spielberg por plágio

Autor: ATARDE

Saymon Nascimento, do A TARDE On Line

O diretor Steven Spielberg está sendo processado pelos herdeiros do espólio do escritor Cornell Woolrich, morto em 1968. O motivo é o suposto plágio do conto It Had to Be Murder, que inspirou Janela Indiscreta, clássico do cineasta Alfred Hitchcock. Os autores da ação acusam Spielberg, como produtor-executivo, de copiar a trama do conto para o filme Paranóia, do ano passado, dirigido por D.J. Caruso. It Had to Be Murder foi lançado este mês, no Brasil, com outras quatro narrativas curtas de Woolrich, pela Companhia das Letras, com o título Janela Indiscreta e Outras Histórias.

Em Paranóia, um estudante adolescente (Shia LaBeouf) fica em prisão domiciliar após agredir o professor de espanhol. Como punição, a mãe proíbe diversões domésticas – XBox, ITunes, TV a cabo. O tédio vai embora quando ele passa a espiar a rotina dos vizinhos: os meninos levados que fazem travessuras insuspeitas, a linda garota que se bronzeia diariamente na piscina, e, claro, o estranho vizinho com comportamento suspeito.

No conto de Woolrich e no filme de Hitchcock, um fotógrafo de perna quebrada, vivido por James Stewart, espiona a vizinhança e põe na cabeça que testemunhou um crime. Não há certeza de que o assassinato foi realmente cometido: uma persiana se fecha, a mulher não aparece mais, o homem despacha um baú cheio de roupas femininas.

Reciclagem – Para os autores da ação por plágio, Paranóia usa apenas “variações insubstanciais” para esconder o fato de que o filme é remake de Janela Indiscreta, e, portanto, devedor de direitos aos herdeiros do escritor Cornell Woolrich.

Seja qual for o resultado do julgamento, a ação ignora completamente o funcionamento de Hollywood e sua lógica da reciclagem. Nada mais comum que histórias antigas sejam adaptadas e ganhem nova roupagem. Em geral, os produtores apresentam os novos projetos aos estúdios como uma mistura de dois filmes anteriores. Casos de processo por plágio são raros, e as ações correntes são movidas quase sempre contra filmes indianos que refilmam longas de Hollywood cena a cena, com atores locais.

Além disso, Janela Indiscreta é um filme tão influente que suas imitações desautorizam qualquer idéia de plágio do conto. Hitchcock provavelmente desmentiria essa tese – tinha o hábito de mostrar-se cético em relação a interpretações de suas obras –, mas Janela Indiscreta encantou outros diretores com sua metáfora do próprio cinema. Diante da janela, escolhendo com a luneta qual plano será visto por ele (e pelo espectador), o personagem é praticamente um montador, controlando a imagem – e, sem perceber, sendo controlado por ela.
Mostrando o olho humano mediado pela técnica, Hitchcock lançou as bases para o cinema de Brian De Palma, que refez Janela Indiscreta com Dublê de Corpo, e não foi processado.

Michelangelo Antonioni, outro grande mestre, bebeu na mesma fonte com uma imagem parada – o protagonista de Blow-Up investiga a existência de um crime registrado por um instantâneo de sua máquina fotográfica. A lista de grandes filmes que copiam o conceito não pára por aí: vai até A Conversação, de Francis Ford Coppola, e Um Tiro na Noite, de De Palma, que substituem a imagem pelo som para desenvolver a reflexão inicial de Hitchcock sobre a vulnerabilidade dos sentidos diante do poder de manipulação do cinema, em todos os seus elementos e aparatos.

O mesmo argumento do voyeur controlador foi usado com fins mais emocionais por Krzysztof Kieslowski, em Não Amarás, e pelo brasileiro Marcos Bernstein em O Outro Lado da Rua. Paranóia nem chega perto dessas pretensões, mas os herdeiros de Cornell Woolrich se prendem em detalhes da trama para criar alguma relação entre as obras e reivindicar a patente do voyeurismo.

Woolrich e os contos – Em seu célebre estudo O romance policial, o escritor francês Thomas Narcejac aclama Cornell Woolrich por tornar complexo o gênero.

Para Narcejac, que também era romancista e escreveu os livros que originaram os clássicos As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot, e Um Corpo Que Cai, de Hitchcock, Woolrich tinha a qualidade de propor outros pontos de vista para o leitor, que não o do assassino ou o do investigador.

As posições freqüentemente se invertiam, e a vítima se tornava parte essencial da narrativa. Nos contos publicados pela Cia. das Letras, essa flexibilidade de foco narrativo está presente, mas as histórias são decepcionantes quando se pensa que o autor conseguiu atrair a atenção de diretores como Alfred Hitchcock, François Truffaut e Robert Siodmak, que o adaptaram.

Woolrich tem o grande mérito de criar boas situações de suspense, mas os personagens são autômatos: apenas servem como âncoras da tensão. Os diálogos são uma mostra disso. Didáticos e explicativos, existem no texto de forma apenas funcional, para empurrar a história para a frente, quando necessário.

Pela falta de dimensão humana dos personagens, os contos de Woolrich não atingem nem de longe os níveis de brutalidade e melancolia que fizeram com que escritores como Raymond Chandler e James M. Cain superassem a pecha de leitura ligeira do policial, criando obras de gênero que ficaram marcadas como algumas das melhores coisas produzidas em toda a literatura americana no século passado. Woolrich é apenas B, com tudo de ruim que esse rótulo implica, e nenhuma transcendência.



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