Rodrigo Moraes - Advocacia e Consultoria em Propriedade Intelectual

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Entrevista

Publicada em 10/08/2007

Luiz Caldas

Precursor. Pai do Axé Music. Genial instrumentista. Não importa o rótulo, mas o conteúdo desse talentosíssimo artista baiano, autor de sucessos como Fricote, Haja amor, O que que essa nega quer?, Tieta, Magia, É tão bom... Nesta entrevista exclusiva, Luiz Caldas comenta sobre trabalho intelectual, plágio, Carnaval, música na Internet, seu lado instrumentista, omissão dos nomes dos autores pelas emissoras de rádio...

Existe um preconceito muito grande da sociedade em relação ao trabalho do criador intelectual. Muita gente acha que, para trabalhar, é preciso sair de casa e ir ao local de trabalho. Muita gente pensa que o artista só trabalha quando faz show. O que você pensa do trabalho do criador intelectual?
Veja esse exemplo da natureza: a raiz. Ela fica escondida. É a parte mais importante da planta. O poder do criador está aí. Mesmo que ele fique em casa, e por mais que a sociedade acoberte o seu valor. Os nomes dos compositores não são citados. Isso não acontece no livro, que, geralmente, não é interpretado por outra pessoa. O nome do escritor está lá estampado. Eu acho isso terrível: até um diretor de gravadora, muitas vezes, é mais reconhecido que o autor, mesmo sem ter feito nada. E o compositor fica escondido.

Você tem algum método de criar? Um horário específico?
Eu tenho várias formas de compor. Noventa por cento das minhas músicas eu faço tudo junto: letra, música, melodia. Tudo ao mesmo tempo. De um tempo pra cá, eu comecei a compor mais na praia. Sem instrumento. Só com a cabeça mesmo. “Deus” é uma música que fiz assim [“Deus” é uma música instrumental. Belíssima. Feita para violão-solo].
Minha parte mais deficiente seria a poética, pelo fato de eu ter estudado pouco. Por isso, eu tenho recompensado lendo muito, até bula de remédio (risos). Ver uma palavra nova, ver se o seu significado, realmente, não é tão carregado, tão pesado... A gente vai envelhecendo e vai tendo mais cuidado.

Você acha que a música é só inspiração? Acredita que se pode criar mesmo sem estar “inspirado”?
Eu não forço, não. Forçando, correria o risco de ter um filho com algum defeito. Eu iria amá-lo do mesmo jeito, mas iria saber que aquele defeito existe. Se a música nasce naturalmente, ela vai ser saudável, por mais simples ou boba que seja. Pesquisar é uma coisa. Compor é outra. Depois, você pode juntar o que pesquisou e transformar em uma música. Queira ou não queira, a pesquisa vai provocar a inspiração.

Você já fez uma música e, logo depois, disse para si mesmo “isso já existe”? Você já teve essa sensação de “plágio”?
Já aconteceu e acontece várias vezes. Eu fico preocupado, até porque trabalho com música popular. E a música popular é como se fosse um grande baú cheio de umbus (risos). Todo mundo vai escolhendo o seu. “Esse não tá bom”. E bota de novo lá... Muitas vezes, você acaba pegando um umbu que várias pessoas pegaram várias vezes, entendeu? Eu tenho um pouco de cuidado com isso. A sensação é terrível. Você fica naquela dúvida: “já ouvi isso...”. Às vezes, a sensação é muito boa, quando a gente faz uma canção belíssima, e ela nasce tão naturalmente, que a gente não acredita que é o pai.

Você é também instrumentista. Um grande instrumentista. Nem todo mundo conhece esse seu lado. As pessoas conhecem bem mais o Luiz Caldas intérprete, precursor do Axé Music. Queria que você dissesse qual o instrumento que você acha que toca melhor.
Muita gente não sabe que sou mais instrumentista que cantor. Mas eu não provoco que as pessoas saibam disso. Espero que saibam naturalmente. Eu não quero que haja uma “forçassão de barra” como instrumentista, sacou? Não quero que haja uma cobrança das pessoas, esse monstro da ansiedade: “o que é que você tem de novo”? Mas, sem sombra de dúvida, meu instrumento preferido é o violão. É o que eu me sinto melhor. O que a minha cabeça imaginar, os dedos fazem, podem proporcionar. Há esse link legal. Porque, muitas vezes, você tem a mente totalmente aberta para determinado instrumento, mas os dedos não estão preparados, não estão à altura para isso. Eu gosto muito, também, de guitarra, instrumento semelhante ao violão, apesar de ser tocado com palheta. Tem a guitarra baiana, também, um instrumento que gosto de tocar. E piano... Eu gosto de todos os instrumentos, mas o meu instrumento é o violão.

Vamos falar de Carnaval. Você foi precursor de tudo isso que se chama “Axé Music”. O primeiro artista de âmbito nacional, que estourou na década de oitenta, quando não havia ainda uma profissionalização, não havia toda essa indústria.
Antes, a gente negociava com a música. Depois que foi criado o Axé Music, muitos artistas deixaram de negociar com a música. Eu mesmo, por exemplo. A gente passou a negociar com os políticos, para ver se podia tocar ou não. Porque [o Carnaval] passou a existir. “Ah, se passou a existir, é nosso. Nós [políticos] é que cuidamos”. Mas, na hora de fazer, ninguém foi lá dizer que a gente não podia subir no trio e tocar. Não existia o que existiu, por exemplo, no Carnaval de Olinda, onde a política chegou e disse: “Não vai mudar, não. É Vassourinha.” Ficou só isso. Mas a gente sabe que lá tem muitas outras coisas. Então, a gente conseguiu criar um lance. E, nesse momento de criação, a gente negociava a irmandade, o bom relacionamento. Eu não tinha verba para negociar. João Américo [reputado técnico de som], por exemplo, me fazia som “fiado”. Não era de graça, mas ele só recebia depois, quando a gente gerava o dinheiro. Todo mundo saía satisfeito. Não existia aquela coisa de “aquilo ali vai rolar grana”. A gente não fazia para rolar grana. A gente fazia para ter a festa. Porque não tinha. Havia o Circo Relâmpago, mas que tinha a cara do Rio de Janeiro, dos artistas do Rio. Cults, emergentes, veteranos. O Troca de Segredos, não, teve a nossa cara, as nossas músicas. Eu passei três anos dizendo: “olha, meu LP está vindo”. E a galera: “quando é que vem, velho?” E a gente tocando as músicas. Maturando. E foi um disco belíssimo, que tem, por exemplo, Magia. E tem Fricote [“Nega do cabelo duro...”], que foi a música mais ligada ao Carnaval, que o grupo não queria que entrasse no disco. Porque o disco era muito bem elaborado, com salsa, com todo tipo de coisa. De repente, uma música tão boba no meio... Eu disse: não. Mas eu venho do Trio Elétrico. Eu venho do povo. Eu sou popular. Eu não sou erudito nem nada disso. Eu sou uma pessoa normal, entendeu? Eu quero ter direito a ouvir tudo. Eu sou como Lula: eu tenho duas orelhas (risos).

De vinte e cinco anos pra cá, diga uma coisa que melhorou e outra que piorou no Carnaval da Bahia.
Uma coisa que é melhor do que antes? Não está ligada ao Carnaval. Está ligada ao que o Carnaval usa: tecnologia. Mas o que é que a tecnologia tem a ver com o Carnaval? Nada. Mas os aparelhos melhoraram, a sonorização de trio melhorou. Se o carro melhora, o trio vai ser melhor. Mas eu não sei até que ponto isso melhora a festa em si. A espontaneidade não vai mudar em nada. Musicalmente, a música segue sendo assassinada. Eu estou falando pela humanidade, da música em geral. Se a gente for pensar, em 1440, você ouvia Palestrina. E já tendo ouvido Mozart, Bach, Tchaikovski, Ernesto Nazareth, Carlos Gomes, Pixinguinha... Aí chega MC Serginho Lacraia. É cruel. Então, você vê uma evolução, por exemplo, entre o disco de Caetano “Araçá Azul” e esse que ele fez agora de rock [“Cê”]? Você vê uma evolução musical? Eu vejo, sim, uma evolução como ser humano. Ele está se relacionando com as pessoas, diretamente, com a linguagem que elas estão ouvindo hoje em dia. Mas ele não evoluiu. Ele teve que involuir para poder descer o degrau dele e ficar na mesma altura. Ele fez aquele disco [Araçá Azul] pra ele. Este outro, não, é um trabalho jovem, de aproximação. Não estou dizendo que ele está forçando a barra, porque ele [Caetano] é ele. Natural pra caramba. Então, isso é para permear o que eu estou dizendo sobre evolução musical. Então, o Carnaval não pode fugir a essa regra. Ele já teve épocas melhores, com músicas do Olodum maravilhosas. Samba-reaggae, coisa e tal. Mas, hoje, está perdendo para as marchinhas “Alalaô, ôôô, ôôô”. Eu prefiro ouvir uma marchinha dessa do que certos axés e pagodes que estão sendo feitos. Há uma oscilação muito grande. E o pior que é uma oscilação entre o ruim e o duvidoso.
Porque o povo quer a festa. A festa é necessária. Psicologicamente falando, o cara trabalha e ele tem que ter a diversão, senão ele pira. Não é isso?
O anfitrião da festa, que é a alegria, ficaria muito mais satisfeito.

Com a Internet, como fica a música neste século XXI? O CD vai acabar?
O fim da mídia está ligado, totalmente, às indústrias que fabricam leitores. Enquanto houver leitor ótico, o CD vai estar funcionando. Depois que não tiver... Eu tenho vinil pra caramba, mas não tenho agulha. Eu queria escutar LP. Parei de escutar. Hoje em dia, a música é um sinal. Tendo o sinal, já foi. É possível mandar pela Internet, em MP3.

O que você acha de as rádios não dizerem os nomes dos compositores? Você acha que as emissoras perderiam a dinâmica com a inserção desses nomes?
Não, de forma nenhuma! Eu acho necessário mencionar os nomes. Os caras falam tanta abobrinha, bicho! Locutor de rádio fala tanta coisa desnecessária para poder encher o tempo. Não é depreciar. Muitas vezes, existe uma falsa alegria: "Ôôôiii, como vai você?" [imitando a voz de locutor]. Mas, por que não usar um tempinho para informar? É maravilhoso! Você já pensou ouvir uma música bonita pra caramba na voz de Chico Buarque e, depois, a grata surpresa de que a música é de Zeca Baleiro, que é um cara de outra geração? Eu acho que isso é rádio. Isso é comunicação. Esse é o verdadeiro papel da comunicação: informar.

Você chegou a fazer o famigerado exame da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil)?
Eu nunca fui ligado nessa coisa de Ordem dos Músicos. Eu sempre me senti músico. Desde os sete anos de idade, eu me vejo como músico. Desde criança é isso. Então, a minha vida é música. Eu cheguei lá [na sede da OMB] e foi uma facilidade. Eu nem me lembro como foi [o exame de Ordem]. Só sei que eu paguei uma coisa que tinha que pagar e me deram a carteira, que eu não uso. É uma coisa meio estranha.

Crédito foto: César Rasec

Rodrigo Moraes

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