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Entrevista

Publicada em 13/03/2018

José Carlos Capinan

José Carlos Capinan, ou simplesmente Capinan, é poeta de grandes sucessos da música popular brasileira, tais como Ponteio (com Edu Lobo), Papel Machê (com João Bosco), Soy Loco por Ti, América (com Gilberto Gil) e Moça Bonita (com Geraldo Azevedo). Nascido em Pedras (BA), em 19 de fevereiro de 1941, membro da Academia de Letras da Bahia e, também, médico formado pela Ufba, Capinan analisa, nesta entrevista, temas ligados à sua carreira artística, ao Direito Autoral e à liberdade de expressão.

Em 1960, você se mudou para Salvador, iniciando o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Cursou, depois, Medicina, tendo se formado pela Ufba em 1982. Conte um pouco sobre sua experiência na Faculdade de Direito da Ufba. Você não chegou a se formar. Cursou até o terceiro ano. Por quais razões você não concluiu o curso de Direito? Como foi sua experiência nessa centenária faculdade?

Meu primeiro ano foi o último da faculdade de Direito na Piedade. Depois o curso foi transferido para o atual prédio existente na Graça (Rua da Paz, s/n). Fui aluno, por exemplo, de Orlando Gomes e Machado Neto. Em 1964, por causa do golpe militar, eu tive de fugir daqui (de Salvador). Eu era militante do CPC (Centro Popular de Cultura) e do Partido Comunista. Então, fui para São Paulo e, depois, para o Rio de Janeiro. Eu não gostava do curso de Direito porque não acreditava na questão da justiça a partir do Direito.

Em outubro de 1967, você e Edu Lobo venceram o III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, com a música Ponteio. Essa obra continua tendo inúmeras execuções em todo o mundo. Você acha que os editores de músicas, no Brasil, em geral, exercem bem o papel de gestores? Como foram os contratos que você assinou?

Na época em que eu assinei os contratos, eu era muito jovem. Não me lembro dos contratos que assinei. Eu não tinha nenhuma experiência naquela época. Não recebi nada pelo uso de Ponteio em diversos países. Essa obra foi muito gravada lá fora. Eu não sei onde está o contrato de edição. As editoras nunca fazem esse trabalho de conseguir um intérprete para gravar as obras do autor. É um negócio muito complicado, pois as editoras não conseguem novas gravações, não conseguem fazer a devida divulgação da obra. A gente comete muito erro no início de carreira.

Em 2016, Bob Dylan ganhou o prêmio Nobel de Literatura. Você acha que os poetas de livros ainda têm preconceito em relação aos letristas de música popular brasileira? Você é imortal pela Academia de Letras da Bahia, mas tomou posse nessa nobre instituição somente em 2006. Você acredita que essa demora se deve a algum tipo de preconceito em relação à questão do letrista de músicas Capinan ser mais popular que o poeta de livros, autor, por exemplo, do excelente “Inquisitorial”? 

Existe, sim, no Brasil, esse tipo de preconceito. Muito preconceito. Eles acham que letrista é uma coisa, e poeta é outra. Eu não vejo diferença. Inclusive na própria história da poesia, os jograis, os menestréis caracterizam uma fase literária, uma fase da literatura. Música e poesia não se dividiam em duas atividades. A única coisa que pode existir é uma letra ruim como também um poema ruim. O prêmio Nobel de Bob Dylan foi um bom exemplo que não se considera essa separação entre poesia e letra. Essa separação é uma coisa brasileira. Não conheço essa separação em outro lugar.

De 1987 a 1989, você atuou como secretário da Cultura do Estado da Bahia. Na década de oitenta, você também foi um dos conselheiros do Conselho Nacional de Direito Autoral (CNDA), que foi desativado no governo Collor.

O CNDA foi uma bela iniciativa, mas não foi adiante. Infelizmente.

Você teve alguma música censurada na época do regime militar? Como você enxerga essa temática da censura nos dias atuais?

A peça musical Bumba-meu-boi, que fiz com Tom Zé, foi censurada. Fui indiciado e respondi a um inquérito policial. Eu era do CPC (Centro Popular de Cultura) e tivemos de extingui-lo. Tive de sair da Bahia e viver fora. Fiz, também, uma música com Carlos Pitta (Triângulo das Bermudas), que foi censurada. A verdadeira censura que poderia ser exercida é a censura de educar melhor. Preparar as pessoas para escolherem aquilo que vão ouvir, vão ler, o que vai fazer parte dos seus interesses intelectuais e  estéticos. Então, a censura é sempre uma coisa que eu não gosto, que acaba sendo uma imposição autoritária sobre coisas que são livres, como  a criação. Não faz parte do meu gosto o óbvio das letras tidas como pornográficas ou pornofônicas. Eu não acho graça nenhuma. Existiu até dentro da música popular brasileira uma tendência até mais apimentada, mas as coisas eram feitas com mais habilidade do que essas que diretamente entregam o jogo, que são como sexo explícito. Antes, a mim só fazia o efeito cômico da citação, da brincadeira. Mas, hoje, acho esteticamente fraco, muito apelativo, com muito pouco a acrescentar à nossa sensibilidade.Não matam a minha fome de beleza e satisfação estética. Eu acho que a educação resolveria isso. Um país mais educado, mais informado, mais preparado desde a infância para o que vai ser considerado objeto de fruição estética, eu acho que mudaria tudo.

Como você enxerga, hoje, o Direito Autoral no Brasil? Você construiu um patrimônio considerável por causa do seu vasto repertório?

Há uma grande desagregação na área autoral. Eu fui muito prejudicado na época de Ponteio. Eu não tenho riqueza absolutamente nenhuma. Eu sou pobre, pobre de verdade, recebendo às vezes quantias irrisórias. O Ecad tem uma falha muito grande. Eu não sou dos que defendem o fim do Ecad. Mas tem muito apronte ali dentro. O Ecad falha na distribuição. Eu acho que remunerar o autor de forma rigorosa, que lhe garanta sua sobrevivência, ainda não chegou ao ponto de satisfação. Eu tenho inúmeras queixas. Com mais de duzentas músicas gravadas eu ainda não recebo dessas obras a minha fonte de sobrevivência. Minhas músicas não são a fonte de minha sobrevivência. Eu sobrevivo como gestor cultural, trabalhando na área cultural. (Atualmente, Capinan é o diretor do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira – Muncab). É um descalabro. É preciso processar os usurpadores. O Direito Autoral ainda é bastante desconhecido e bastante desrespeitado, inclusive pelo poder público. Eu acho que é completamente desconhecida a ideia de que “tocou, pagou”. Isso tem que ser respeitado e conhecido. Quando um arquiteto faz uma obra, ele recebe, inclusive, de maneira pré-combinada. Mas a música parece ser uma coisa livre, como um passarinho. As emissoras de rádio deveriam dizer os nomes dos autores. Isso seria efetivamente o reconhecimento do direito de autoria.

Você já é ouvinte das plataformas de streaming musical?

Não. Ainda não. O consumo da música mudou muito. Eu ainda ouço os meus discos (vinis e CDs).

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Crédito da foto: Márzia Lima.

Biografia de Capinan: http://dicionariompb.com.br/capinan/biografia

Playlist "Canções do poeta Capinan"

Livro de Capinan sobre a história de suas canções:Vinte Canções de Amor e um Poema Quase Desesperado.

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