Rodrigo Moraes - Advocacia e Consultoria em Propriedade Intelectual

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Entrevista

Publicada em 30/08/2012

Geronimo Santana

Geronimo Santana é a cara da Bahia. Cantor e compositor de grandes sucessos, como É d’Oxum, Eu sou negão (“meu coração é a liberdade”) e Jubiabá, Geronimo é, também, um talentoso jinglista, autor de inúmeros jingles marcantes. O mais famoso deles é “ACM, meu amor”, um marco na história política baiana, que fez com Vevé Calazans. Candidato a vereador da Cidade do Salvador nestas eleições de 2012, mostra, aqui, um pouco de sua trajetória e do desejo de melhorar a vida do povo soteropolitano.

De que ano é mesmo o hit “Eu sou negão”?
1986.

Em sua opinião, o movimento negro foi contra essa música?
Não, nunca foi contra. O movimento negro queria sacrificar, na época, Luiz Caldas, por causa de Fricote (“nega do cabelo duro, que não gosta de pentear...”). E eu defendi Luiz, várias vezes, nos lugares que tinha debate sobre isso. Essa música é dele (Luiz Caldas) e de Paulinho Camafeu, que é negro. Eu não sou negro, eu sou mulato. Mas, na minha concepção, aquela expressão “nega do cabelo duro” não é ofensiva. A nega tem, de fato, cabelo duro. Se dissessem “nega do cabelo liso”, talvez, sim, seria uma colocação ofensiva. A letra é pueril. “Pega ela aí pra passar batom” era uma gíria que se dizia no mangue, pra qualquer pessoa, pra homem, pra mulher. Entendeu? Se o cara era meio à toa, neguinho dizia: “Ê, pega ele aí pra passar batom”. Era uma brincadeira. Não era uma coisa grave. Pra mim, a música que tem mais racismo é daquele compositor carioca (Lamartine Babo e Irmãos Valença), que diz assim: “O teu cabelo não nega, Mulata/ Porque és mulata na cor/ Mas como a cor não pega
Mulata/ Mulata quero o teu amor”. Quer dizer, como a cor não é óleo que pega na pessoa, ele só quer “comer” a mulher.

Essa lei da antibaixaria não é exagerada? Voltaram a proibir, por exemplo, “Fricote”, em pleno século XXI.
A proposta da deputada (Luiza Maia) não é proibir que toque, mas proibir que dinheiro público seja direcionado para certas bandas que tocam músicas que ofendem as mulheres. Se o dinheiro sai do bolso das mulheres, elas têm o direito de reclamar. Agora, se uma banda tiver de mostrar, previamente, para o poder público, o repertório que irá tocar, eu vejo isso como censura. Teve um prefeito do interior do Estado que contratou uma banda de pagode dessas. Quando a banda começou a tocar as piores músicas de duplo sentido, o prefeito saiu do átrio, juntamente com sua esposa e sua filha. Era muito acinte. Eu não culpo a banda, não. Eu culpo o prefeito. Contratou porque quis.

A deputada alega uma “violência simbólica” contra a mulher. Mas existe também uma violência (que não é simbólica, mas real) contra os compositores, já que inúmeras prefeituras da Bahia não pagam direitos autorais. Algumas bandas de forró ganham uma fortuna no período dos festejos juninos, e as prefeituras simplesmente ignoram o pagamento de direitos autorais. Pagam apenas os cachês das bandas e alegam que “cultura é um direito do povo”.
Isso é uma coisa gravíssima. A prefeitura deveria reter na fonte o percentual dos autores, mas não é assim que a gente vê na prática. Isso ocorre pela ignorância dos governantes, pela má assessoria que os prefeitos têm. Aqui, utilização de música é uma coisa marginal. O Estado só reconhece o músico que toca na Orquestra Sinfônica, aquele que é funcionário público, que ganha bem e é marrento, sabe? Ensaia todo dia apenas duas horas, das dez às doze. E ganha bem. Merece. Mas esses músicos poderiam ensinar música e comportamento artístico nas escolas públicas. Deveria ser aproveitado esse material humano. Eles não trabalham oito horas por dia, mas apenas duas horas. O músico da OSBA deveria ser, também, professor de escola pública. Como vereador, eu quero pegar no calcanhar do prefeito, no calcanhar do governador, para fazer isso acontecer: as escolas públicas tendo aulas de música. Existe uma lei para isso, mas que não é cumprida.

Por que Salvador, até hoje, não tem uma Secretaria de Cultura? Recife tem.
Boa pergunta. Eu gostaria também de saber. Foi-se criada uma fundação (Fundação Gregório de Mattos), que funciona como uma “Secretaria de Cultura”. Foi fundada no governo de Mário Kertész. No governo de Mário Kertész, bem ou mal, funcionou bem. Eu não sei, por exemplo, quem está dirigindo, hoje, esse órgão. A Fundação já teve, por exemplo, Paulo Costa Lima, que é um cara sério. Ele desenvolveu coisas que praticamente estão mortas, de novo. O grande problema dos nossos governantes é que neguinho não dá continuidade às coisas boas para o povo. Eles preferem destruir para querer construir tudo novamente. Essa ideia de querer destruir para depois querer construir, na minha visão, é gasto de dinheiro em demasia. É terrível Salvador não ter uma Secretaria de Cultura.

Por que Recife gasta dez vezes mais dinheiro em cultura do que Salvador?
Rapaz, eu gostaria de poder ter a resposta certa. É porque Salvador é uma província! Aqui, neguinho se comporta como no século XIX. Aqui, os filhos e os filhos de seus filhos são herdeiros da política, sabe? O avô de Neto (ACM) foi um cara que, com todos os seus defeitos, desenvolveu a Bahia. Não é que ele seja o grande mito. Ele desenvolveu a Bahia porque tinha, pelo menos, um centímetro de amor por esta terra. E o que mais me dói é que ninguém é patriota, ninguém ama verdadeiramente a sua cidade. Neguinho tem aquela alma lusitana de entrar no cargo público pra se dar bem. Era assim que os portugueses que viviam aqui faziam. Até hoje a gente ouve falar: “Fulano de tal entrou numa secretaria. Vai se dar bem...”. Isso tá incutido na cultura do povo da Bahia. Como tá incutido, também, na cultura do povo da Bahia o seguinte: só vota se der dinheiro. Sabe? É o povo etéreo. Esse eleitor que recebe dinheiro pra votar vai ser sempre miserável. Eu penso assim. Essa é a minha visão. Eu estava no centro histórico de Paris, tudo estava tranquilo, e, de repente, surgiu um cara bêbado, perambulando. O carro da polícia veio, devagar, o policial saltou, tratou o cidadão com respeito, botou o cidadão no carro e o levou pra outro lugar, para um lugar de reabilitação, alguma coisa assim. Nossa cidade é, cada vez mais, uma cidade-dormitório.

E o enorme sucesso popular das bandas de pagode?
A maioria dos empresários baianos acha que o sucesso é a mácula do dinheiro. O que se atribui, hoje, a sucesso é um estilo de música que tem um comportamento erótico. Aliás, eu não digo nem erótico, eu digo pornográfico, pornofônico, com uma linguagem poética pobre, mas de grande valia para a multidão. O que se atribui a um comportamento contra a sociedade dominante são essas músicas. No século XIX, surgiu, entre a Bahia e o Rio de Janeiro, um estilo de dança chamado lundu. Se você for ao Wikipédia e digitar lundu, tem uma gravação do início do século XX, logo quando surgiu o gramofone. A linguagem musical daquela época é a do estereotipo dessa linguagem que se tem agora. Eu vou declamar pra você uma letra de uma música do século XIX: “Plantei batata e fiquei foi de cucaia. O bicho que mata homem mora debaixo da saia. Tem baba feito morcego, esporão feito arraia. Tem um buraco no meio onde a madeira trabalha.” (Risos)

Lundu era o pagode de antigamente.
E era proibida. A sociedade proibiu por causa das danças eróticas que os negros faziam entre eles.

E o saudoso Vevé Calazans, seu grande parceiro musical, coatuor de É d'Oxum?
Tenho muita saudade dele. A ficha ainda não bateu. Nessa época do ano (época de eleições), nós estávamos juntos, fazendo jingles.

E o nosso Centro Histórico? Por que o baiano parou de frequentar o Pelourinho? Por que, quando chega um turista, vêm dez ambulantes vendendo fitinha do Bonfim? Por que não existe um treinamento desse pessoal?
É terrível. A tendência é o Pelourinho virar um bairro nobre. Tem muita gente comprando imóveis lá. Neguinho vai empurrar o povo pobre dali pra algum lugar. O Pelourinho pra ter vida, na minha opinião, tem que ter morador. O Pelourinho não tem morador. Não tem mais comunidade, entendeu? O Pelourinho tem que ter padaria, farmácia, morador. O que faz a cultura acontecer é morador. Todas as pessoas que têm vício de crack moram por lá, no meio da rua. Não existe intervenção social agressiva. A polícia prende o pequeno traficante, mas não vai à origem. A polícia tem condição de saber quem é. Olha que coisa: vamos dizer que você está no Pelourinho e, de repente, você é roubado, um cara pega sua carteira e sai correndo. Aí você vai à delegacia que tem lá, a delegacia do turista. Só quem pode prestar queixa que foi roubado é o turista. Você, que é cidadão soteropolitano, tem que ir pra outro lugar.

É mesmo?
É... Polícia, para mim, tem que ser para todos.

Ainda lhe rotulam por você ter feito, juntamente com Vevé Calazans, o grande jingle de ACM? Ainda existe esse patrulhamento ideológico da esquerda?
Eu acho que não. Não tem mais patrulhamento, não, porque agora são situação. São situação. O jingle “ACM, meu amor” virou hit, algo emblemático. Se não fosse o processo que estou movendo contra eles (TV Bahia, DEM e ACM Neto), eles estariam usando o jingle a rodo. Eu não tenho o que dizer contra o governador e senador Antônio Carlos Magalhães. Além de me tratar muito bem, ele nunca me envolveu politicamente na vida dele. Ele sabia respeitar muito bem qualquer artista.
O que me preocupa é que, sendo o poder doce, quando a pessoa está se alimentando desse doce, esquece-se do amargo que passou. Isso pra mim é preocupante. E volto a dizer: falta patriotismo, baianidade, amor. Amor, velho. Sabe como é que é? Salvador é a cidade mais rica em cultura. A Bahia tem toda a cultura do Brasil aqui. Eu sou apaixonado por Salvador.

Geronimo, como compositor, viveria de direitos autorais, sem precisar tocar, sem precisar fazer shows?
Eu gostaria muito de viver só de meus direitos autorais. Mas não é fácil, não. Não dá.

Você é autor da música Jubiabá, baseada no romance de Jorge Amado. A música virou um grande sucesso. Até os Paralamas do Sucesso gravaram essa música, na década de oitenta.
Jorge Amado fez a sinopse do meu disco na EMI-Odeon. Eu conheci Jorge por pouco tempo. Mas o pouco tempo que eu o conheci, eu vi que ele era uma pessoa muito simples, sabe? Olhava no seu olho sabendo o que você tinha no seu odu, vendo a sua ancestralidade. Existem alguns intelectuais que criticam Jorge Amado, mas não se pode criticar uma pessoa que não inventou nem criou nenhuma ficção nos personagens. Todos os personagens de Jorge Amado existiram e estão vivos até hoje: nos restaurantes, nas ruas, no Pelourinho, no porto, na política. Ele foi um escriba. Jorge Amado não foi um escritor. Ele foi um escriba. E o mundo se apaixonou. Ele foi deputado, mas depois se cansou disso. Eu estou me preparando para a política. Eu não tenho medo da pobreza, como não tenho medo da riqueza. Pra mim, tanto faz. Se eu sobreviver, é o que interessa. Eu estou na campanha, quero influenciar meus amigos que amam essa cidade. O homem não vive sem política. Somente agora, aos 59 anos de idade, eu decidi me envolver na política. Eu não quero que a Bahia seja um Líbano, uma Síria. Eu sou sempre um otimista. Penso sempre que a coisa pode mudar.
 

Facebook de Geronimo: http://www.facebook.com/geronimo.santana.7
Crédito da foto: Maurício Almeida

Rodrigo Moraes

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