Rodrigo Moraes - Advocacia e Consultoria em Propriedade Intelectual

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Entrevista

Publicada em 14/12/2009

Marcelo Quintanilha

Marcelo Quintanilha é um dos maiores autores da nova geração da MPB. Com seis discos lançados, Quinta é cantor, compositor, músico, publicitário, paulistano, palmeirense e apaixonado, também, pela Cidade do Salvador. É coautor de "Andarilho Encantado", novo sucesso de Daniela Mercury. Nesta entrevista, fala sobre Direito Autoral, pirataria, publicidade, música digital, emissoras de rádio, dentre outros temas.

A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia promoveu um concurso nacional de jingle em homenagem ao compositor brasileiro. Você ficou em primeiro lugar. As emissoras de rádio não dizem os nomes dos compositores, o que consiste numa infração à Lei Autoral (Lei 9.610/98). Em sua opinião, por que as emissoras não respeitam a Lei? O que fazer para mudar essa situação?
Acho que existe uma cultura já de muito tempo, e não só no Brasil, de supervalorizacão do intérprete, em detrimento do compositor. A massificação do mercado musical tornou o cantor o centro das atenções do sistema, já que se personaliza nele, através de seu carisma, a projeção e identificação do público. O sistema atribui “valor” à arte atrelado a esta maior ou menor capacidade de sedução do intérprete, e “se esquece” do criador, que via de regra não é exposto com tanta intensidade à mídia. Assim, ele se torna desconhecido do grande público.
Cumprir a Lei à força não basta. É anti-natural. À medida em que o público for sendo educado e acostumado, inclusive pelos intérpretes e mecenas deste mercado, a valorizar o criador, a mídia tende a colocar em prática a lei pela naturalidade com que essa nova cultura irá se impor.

* Eis a letra do jingle:

O nome da canção todo mundo sabe
O nome do cantor todo mundo diz
Minha música toca na rádio,
Mas ninguém sabe que fui eu que fiz
Fale meu nome aí, seu locutor
Pra todo mundo saber quem foi que fez
Fale meu nome aí
Que eu sou o compositor
Tenha respeito, é o meu direito, tá na lei
Fale meu nome aí, seu locutor
Pra todo mundo saber quem foi que fez
Essa música é minha
Eu sou o compositor
Também quero ter voz
Também quero ter vez!

Para ouvir, clique aqui.

Você, além de grande compositor, é publicitário, formado, em 1991, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing. É um requisitado jinglista em São Paulo, autor e cantor de inúmeros jingles de grandes empresas. Qual a diferença entre fazer um jingle e uma canção de MPB?
São linguagens totalmente diferentes. A criação publicitária tem muito mais amarras que acabam limitando a criação, e, ao mesmo tempo, a tornando um grande desafio. A intervenção do cliente no conteúdo (via de regra quase impossível de ser colocado todo num jingle), a limitação de prazo e de tempo do formato (30 segundos, na grande maioria) e, principalmente, os “pitacos” do Sr. Cliente Leigo (mas dono do dinheiro) na melodia e letra tornam o compositor de jingles quase um "ninja".
Mas o desafio vale a pena. Aprende-se, com essa linguagem, a se ser sucinto, enxuto, a se tirar tudo de cada palavra, de cada nota, de cada segundo disponível. Aprende-se a criar com intensidade, com densidade.
Isso tudo me serviu, e muito, para burilar e lapidar minha linguagem pessoal.
Basta então saber usar essa densidade, essa intensidade, da maneira que se quiser (ou não…), quando se vai compor uma canção, que não tem prazo nem forma definida. Mas aí, o cliente mais chato aparece: você mesmo! Haja paciência pra se autoagradar…

Se a sua filha, Nina, de oito anos, chegasse em casa com DVDs piratas, o que você diria como pai?
Que está errado. Que aquele artista que gastou dinheiro pra fazer aquele DVD ou CD não ganhou o seu lucro, o dinheiro do seu trabalho, e assim, se todos fizessem isso, ele não poderia mais fazer os DVDs e CDs que ela tanto gosta de ouvir.

No próximo Carnaval de Salvador, em 2010, haverá a comemoração dos 60 anos de Trio Elétrico. Você é coautor de “Andarilho Encantado”, com Daniela Mercury. Como vocês fizeram essa canção, que é a música de trabalho da Rainha do Axé? (“Andarilho encantado/ Nascido em fevereiro/ sonho eletrificado onde a guitarra canta o primeiro/ sou a escola de samba de rodas/ da Bahia fui pro mundo inteiro/ alegria me acorda sem cordas/ do amor sou prisioneiro”...).
Daniela é tão visionária e talentosa quanto generosa. Sei que tenho meu mérito, mas foi uma honra ter sido chamado por ela pra compor essa canção. Na verdade, em outubro, ela já me dizia da vontade de homenagear os 60 anos de Trio e 25 do Axé, e me pediu que começasse a pensar em algo, pois estaria viajando por um grande período.
Claro que saí fazendo sem demora, e, assim que ela voltou, me chamou para finalizarmos a cancão, juntando o que ela tinha mais gostado do que eu já tinha feito com idéias maravilhosas que trouxe com ela, de letra e melodia. Depois de 7 horas batendo as idéias todas no liquidificador dos nossos cérebros, saiu essa música linda, (modéstia à parte), que, tenho certeza, fará uma homenagem à altura do que merecem o Trio e o Axé.

Você fez para sua esposa, Vania Abreu, uma das músicas mais lindas que já ouvi, chamada Mais de Mim (“Deixe eu te contar mais de mim/ quero te mostrar quem sou/ sou como o lugar de onde vim/ onde tudo começou...”). Foi feita em poucos minutos ou demorou semanas? Como foi o processo de criação dessa linda obra?
Muito obrigado pelo elogio! É que você sabe, o amor move!
Fiz essa canção muito rápido, todo apaixonado (o que ainda sou) numa tarde do começo do nosso namoro, quando ela gravava o seu “Seio da Bahia”, do qual a música acabou fazendo parte.
A música tem uma auto-citação meio escondida: “É o que vem após a quarta-feira…”, ou seja, eu, Quinta (risos). Já que ninguém nunca fará uma música pra mim, resolvi fazer uma música pra Vania como se ela cantasse pra mim…

A Internet revolucionou a comunicação. Como o compositor poderá lidar com essa nova realidade? O disco continuará existindo em formato tangível? O que acha desse tal movimento Música Para Baixar? Trata-se de democracia ou demagogia barata?
Vou ser simples e direto. O CD já se transformou em cartão de visita do artista. Acho que não terá mais valor de mercado. Antes, CDs eram vendidos nas saídas dos shows como forma de se lucrar. Hoje o lucro vem do show, onde se entregam CDs para que o público conheça e divulgue o artista; para que se lote o próximo show.
Cada artista deve criar a estratégia que lhe for mais conveniente e possível, mas acho que é a evolução natural do mercado musical.
Sobre a Internet, sinceramente, tenho ainda uma visão muito embaçada de tudo isso. Vejo as duas coisas possíveis. Tanto se cobrar pelos arquivos baixados quanto também fazê-los virar amostra grátis do artista. Depende de cada um. De cada artista e, principalmente, de cada fã. Vivemos ainda no início de uma nova era nesse campo da rede mundial, onde a lei não manda nada, e, sinceramente, não sei se eu viverei pra vê-la mandar.

Quais os seus projetos para 2010? O lindo CD Pierrot e Colombina, com você e Vania cantando clássicos sobre o Carnaval, vai virar DVD?
Adoraria que sim. Acho o Pierrot & Colombina, sinceramente, uma idéia única, muito bem executada, e de uma maneira absolutamente natural por nós dois, já que o carnaval fez e faz parte de nossas vidas. O CD e o show representam muito bem esta festa maravilhosa de nossa cultura e são merecedores, sim, de um registro de imagem.
Tenho outros tantos projetos em mente, mas minha careca me deu experiência de saber que é melhor não falar sobre o que não depende só de nós, ao custo de nos tornarmos falastrões como os politicos.
Idéias não faltam a quem cria. Falta muitas vezes quem as execute.


Crédito da foto: Ana Mesquita
PS. Visite o site oficial do cantor e compositor Marcelo Quintanilha: www.marceloquintanilha.com.br
Visite, também, o site de sua produtora: www.casadacancao.com.br




Rodrigo Moraes

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