Rodrigo Moraes - Advocacia e Consultoria em Propriedade Intelectual

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Entrevista

Publicada em 02/02/2007

Manno Góes

Autor de sucessos como “Quero a Felicidade” (com Daniela Mercury), “Milla” (com Tuca Fernandes), “Acabou”, “Praieiro”, “Ê, Saudade”, Emmanuel Góes Boavista, o Manno Góes, é baixista e principal compositor da banda Jammil e Uma Noites. Após o debate sobre Direito Autoral ocorrido na Casa dos Praieiros (SSA), ele concedeu esta entrevista exclusiva para este site. Entre os temas abordados estão pirataria, composição, Carnaval, Direito Autoral, religião, projetos sociais, os 10 anos da banda.

Compor canções é fruto de inspiração ou transpiração? Você tem horário ou método para compor?
Eu acho que é um pouco dos dois. Já dizia Picasso que compor é 90% transpiração e 10% inspiração. E não deixa de ser verdade, porque é um exercício. Quanto mais eu tento, percebo melhor como encaixar certas melodias e tirar certos vícios de composição. No início, o compositor imaturo comete erros bobos, como começar a música em um tempo verbal e terminar em outro. Então, esses detalhes fazem parte da transpiração. O grande condutor do compositor vai ser sempre a inspiração. É um dom, algo que não se ensina. Mas o dom tem que ser compensado com suor. E quanto ao método, eu gosto muito de compor em casa, de noite. Eu crio uma certa ambiência de silêncio. Eu ando sempre com um gravadorzinho para gravar aqueles momentos de inspiração no engarrafamento, no cinema...

Qual a importância do compositor para o sucesso de uma banda e do Carnaval da Bahia?
O criador é fundamental. O compositor é o pai que vê o sucesso do filho à distância. É muito bonito quando eu vejo uma multidão cantando as minhas músicas. A gente sabe que as pessoas estão reverenciando a canção através do intérprete. Mas é um sentimento íntimo nosso. A gente sabe lá dentro: fui eu que pari a criança. O filho é do mundo, não é mais meu. Pertence, às vezes, muito mais ao intérprete que ao compositor. Na maioria das vezes é assim. E é fundamental que o compositor tenha a dignidade de saber que é pai da criança, mas que, naturalmente por ser pai, o filho pertence ao mundo. A vaidade é muito prejudicial. Se o compositor tiver essa vaidade de querer convencer as pessoas – “essa música é minha, essa música é minha” –, acaba prejudicando a própria sutileza do ato de compor, que é simplesmente expressar os sentimentos.

Se você não fosse músico e sócio do Jammil e Uma Noites, sua renda de compositor daria para sustentar a si próprio e a sua família?
Não, de jeito nenhum. Apesar de eu ser privilegiado pelo número de shows que o Jammil faz, de ser muito gravado pelo Jammil e a gente ter, hoje, uma tiragem de discos interessante, minha arrecadação autoral não condiz, de fato, com a realidade financeira da qual eu faço parte. O que é uma pena. Infelizmente, funciona assim. Tento não baixar a cabeça. A gente vai convivendo com isso de uma forma não passiva, mas também não agressiva. Ampliando o conhecimento, eu tenho certeza de que a gente vai conseguir uma maior arrecadação, de uma forma mais justa e coerente.

Fale um pouco do Projeto Social que o Jammil e Uma Noites desenvolveu nesses dez anos de carreira.
A gente lutou muito para chegar até aqui, passou por muitas situações. Quando a gente completou dez anos de carreira, viu que estava chegando no caminho que queria. Então, para comemorar os dez anos, a gente pensou numa forma de retribuir esse carinho todo. Pensamos em realizar o sonho de um Projeto Social. A gente queria cutucar, futucar. Então, pegamos essa casa e transformamos num Centro Cultural, e não apenas em mais um camarote. Aqui, tem debates, parceria com o Projeto Axé, oficinas de música, workshops, um museu contando a nossa história; nas quartas, tem roda de violão... Sempre com um sentido de compromisso social. Tudo isso é comemorativo, mas as pessoas estão pagando três reais pela entrada, e toda essa arrecadação é passada para o Projeto Axé. A gente está muito feliz em saber que está contribuindo de alguma forma, indo além do oba-ôba da festa.

Se você tivesse que mudar alguma coisa do Carnaval, o que mudaria?
A discussão não pode ser simplória, de acabar com bloco de trio, de acabar com cordas... Isso é utopia. Mas, ao mesmo tempo, não deve ser vilã e agressiva, esquecendo instituições menos beneficiadas, os blocos afros, os blocos tradicionais, que lutaram tanto para que o Carnaval fosse o que é hoje.

Eu mudaria uma coisa, sim: daria um destaque muito maior ao Trio de Armandinho, Dodô e Osmar. Eu acho que eles têm uma importância fundamental. O trio elétrico existe por causa da existência deles. Deveria ser reverenciado mesmo... Eu fico enfurecido quando ouço algumas pessoas dizerem: “O Trio de Dodô está na frente. Vamos passar”. Eu acho isso um absurdo, de uma deselegância terrível. É como dar uma rasteira na mãe e no pai. Se eu pudesse mudar alguma coisa, seria fazer uma estátua do Trio de Armandinho, Dodô e Osmar, reverenciando muito a existência deles.

O que você acha do ato de “baixar” músicas, gratuitamente, na Internet?
Eu acho ótimo, partindo do princípio de que quando você baixa uma música na Internet, você não está dando lucro a ninguém. Estou falando do download gratuito. Você não está dando dinheiro a nenhum pirateiro. Eu prefiro ser pirateado na Internet – em que ninguém está lucrando com isso – do que pelo pirateiro, que vende na praia e ainda pede autógrafo pra gente.

Você autografa discos piratas?
(Risos). Autografo. Já autografei vários. É aquela coisa da irreverência. Enfim... Mas eu acho que a Internet vai ser a grande discussão do futuro da música. Os autores têm que ganhar, os intérpretes têm que ganhar, o site tem que ganhar. Como isso vai ser feito? Está se adequando. Ainda é uma questão de adequação. Eu acho que como as gravadoras perderam o poder de divulgação, a Internet é hoje um grande aliado de muitas bandas. É aquela história do “contraventor honesto”. Têm muitas benesses na música divulgada na Internet. Têm os males: a não arrecadação de direitos autorais. Isso é uma discussão que vai se prolongar por anos, mas que vai ser resolvida. Eu tenho certeza.

Qual a importância do Movimento Escalada em sua vida?
Ah, eu acho que muito da minha formação, do meu caráter, profissional e pessoal, se devem ao fato de eu ter tido a oportunidade, na adolescência, de participar do Movimento Escalada*.

Eu acho um Movimento lindo, maravilhoso. Eu lembro com o maior carinho. Tudo relativo à música vem do Escalada, porque quando eu comecei a aprender violão, eu servi ao Escalada; quando eu comecei a compor, eu compus para o Escalada. Então, eu tenho uma gratidão enorme pelo Movimento. E fico muito feliz de ver que o Escalada, hoje, permanece bem. Minha filha (Malu) está com sete anos. Eu tenho certeza de que, daqui a oito anos, ela vai estar fazendo Escalada, tendo o privilégio que eu tive, a sorte que eu tive de participar disso, que é tão bom.

*Obs.: O Movimento Escalada é um movimento formado por jovens católicos que tem como objetivo evangelizar jovens e formar lideranças cristãs. Outras informações: www.movimentoescalada.org.br

Rodrigo Moraes

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